quarta-feira, 9 de Março de 2011

Investigação - "Quais são as vantagens da gabapentina?"

Actualmente, o controlo da dor em Medicina Veterinária é objecto de uma atenção acrescida. A gabapentina, um medicamento anticonvulsivante que diminui a dor neuropática e a dor aguda pós-operatória, está a atrair a atenção dos investigadores.
Um ensaio recente estudou os efeitos da gabapentina utilizada como adjuvante no controlo da dor perioperatória em cães. Foram divididos aleatoriamente em dois grupos trinta cães com amputações programadas ao nível dos membros anteriores por diagnóstico de cancro, sem quaisquer outras doenças diagnosticadas.
Os animais de um dos grupos foram tratados com gabapentina (10 mg/kg) por via oral uma vez antes da intervenção e posteriormente com uma dose de 5 mg/kg a cada 12 horas durante três dias consecutivos. Os animais do segundo grupo receberam um placebo.
Os profissionais envolvidos no ensaio e os donos dos animais desconheciam o grupo de tratamento a que cada animal estava atribuído. Em todos os cães, a medicação pré-anestésica incluiu glicopirrolato e metadona. A anestesia foi induzida com fentanil, midazolam, propofol e mantida com isoflurano que foi suplementado com uma infusão em taxa contínua de fentanil durante toda a intervenção cirúrgica. Foi também realizada uma infiltração anestésica do plexo braquial antes da amputação. Depois da operação, o fentanil endovenoso foi aumentado ou diminuído com base no conforto e comportamento do doente. Foram ainda permitidos analgésicos ou sedativos adicionais.
O nível de dor de cada doente foi avaliado antes da intervenção e em intervalos de duas horas durante um período de 18 horas depois da extubação traqueal.
Foram realizadas avaliações separadas da dor com 18 horas de intervalo, enquanto os doentes permaneciam no hospital, usando diversos métodos de avaliação da dor, tais como, Glasgow Composite Pain Scale e University of Melbourne Pain Scale. Posteriormente foi pedido aos donos que comunicassem a actividade, apetite e sensibilidade na área da ferida durante os três dias seguintes à operação.
Dada a variabilidade individual das classificações pré-cirúrgicas da dor, não foram detectadas diferenças significativas entre os dois grupos na avaliação da dor, tanto no hospital como em casa. A utilização de um infusão de fentanil em taxa constante similar nos dois grupos e a utilização de outros analgésicos também não diferiram significativamente.

Apesar da recomendação frequente de utilização de gabapentina para o controlo da dor crónica em cães, existem poucos dados relativamente à sua eficácia. Neste ensaio não se identificou um benefício da gabapentina a curto prazo na dor pós-operatória. No entanto, isso não significa necessariamente que a gabapentina não tem efeito.
Neste ensaio o tamanho da amostra era reduzido e as classificações basais para a dor eram significativamente diferentes nestes doentes oncológicos. Adicionalmente, os cães incluídos neste ensaio receberam outros analgésicos e a dose de gabapentina encontrava-se no limite inferior da gama de doses recomendada. Sendo que, a administração de doses mais elevadas e mais frequentes poderia ter conduzido a outros resultados.

É necessário desenvolver investigação adicional analisando doses diferentes e frequências de administração diferentes, bem como a utilização da gabapentina noutras condições dolorosas, de modo a que seja possível determinar a sua eficácia e os possíveis benefícios analgésicos.


Fonte:
1. Revista Bimestral (Janeiro/Fevereiro 2011) "Veterinary Medicine"

3 comentários:

  1. Muito bom post.
    Acredito que hajam muitos fármacos com capacidades quase miraculosas na modulação da dor. Porém, os poucos conhecimentos que tenho fazem-me reflectir acerca deste tema de modo "open mind"... No sentido de recorrer à utilização de vários fármacos em associação para a eliminação da dor, induzindo algum poder de regeneração tecidular.
    Acredito que associação de fármacos é muito mais vantajoso e menos perigoso para o animal, uma vez que permite reduzir a dose individual de cada fármaco, evita a sobrecarga das mesmas vias metabólicas (regra geral - enzimas do Citocromo p450, entre outros) impedindo, desse modo, a intoxicação dos animais. Isto revela-se extremamente importante quando falamos em Felinos, os quais apresentam deficiência em glucorunil transferase uma enzima que promove a conjugação das moléculas do Princípio Activo (PA) com o ácido glucorónico (glucoronização), possibilitando, deste modo a excreção do PA.
    Além disto, a utilização combinada de fármacos permite-nos actuar em vários focos do "trajecto" que os impulsos nervosos tomam até ocorrer a percepção da dor no encéfalo: inibição da Transducção - AINE's e Anestésicos Locais; inibição da Transmissão - Anestésicos Locais; Modulação do Trajecto Espinhal - Anestésicos Locais; Opióides; Alfa-2-agonistas; Quetamina; Inibição da Percepção - Anestésicos; Opióides; Alfa-2-Agonistas; Fenotiazínicos; Benzodiazepínicos.
    Assim se utilizar-mos a combinação: AINE's + Opióides + Quetamina ou Benzodiazepínicos ou Fenotiazídicos, estaremos a abranger todos os focos do "trajecto" da dor e a elimina-la em pacientes sujeitos a cirurgias.

    Aqui fica a minha opinião sobre o assunto =)
    Bem Haja Rita

    Ricardo Felisberto

    ResponderEliminar
  2. Muito obrigada por partilhares a tua opinião :)

    ResponderEliminar